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| Amnésias Topográficas CARLOS M
TEIXEIRA / LOUISE GANZ | 2001-2004 O projeto Amnésias Topográficas
começou quando um grupo de teatro de rua, Grupo Armatrux, convidou
os arquitetos Carlos Teixeira e Louise Ganz para colaborar em sua
próxima montagem. Essas discussões culminaram na escolha dos arquitetos
por um espaço então absolutamente inexplorado e latente, o que gerou
a primeira intervenção no que eles chamaram "Amnésias Topográficas"
-- as palafitas de concreto presentes em um bairro montanhoso de Belo
Horizonte. Desde então, duas propostas de intervenção, com características
muito diferentes, materializaram o projeto Amnésias Topográficas.
A primeira delas foi o espetáculo Invento para Leonardo do grupo Armatrux,
um evento que se encaixou em nossa idéia de reverter os espaços negativos
da cidade, aproveitando-os como "espaços ativáveis". Esse evento-intervenção
saiu-se vencedor de "e-2: Defining the Urban Condition", um concurso
internacional organizado em 2002 por groupe-e2, escritório de arquitetos
e urbanistas sediado em Paris. Mais do que um concurso, a intenção
do grupo era lançar uma arena internacional para a discussão da condição
urbana a partir de uma leitura mais abstrata de seus vazios e de seus
potenciais: intervenções que, no entender dos arquitetos, explorassem
as instabilidades, indeterminâncias, desorganizações, imprecisões
e ambiguidades da cidade atual. Na crítica do júri do concurso [composto
por Domenique Perrault (arquiteto da Grande Biblioteca de Paris),
Michel Desvigne (paisagista de renome internacional), Frederic Migayrou
(curador de arquitetura do Centro Cultural Georges Pompidou - Paris),
e Albert Ferre (editor-chefe da editora ACTAR), entre outros], transparece
o caráter muldisciplinar teatro-arquitetura como o ponto forte da
proposta: "o projeto é o único que utiliza o corpo como uma forma
de ação, que aqui é utilizado na apropriação do espaço; (...) sendo
que a riqueza sem dúvida vem da diversidade do grupo." Três anos depois,
a colaboração com o Armatrux continuou com Nômades, última montagem
do grupo. Com direção de Cristiana Brandão e texto do dramaturgo Paulo
Azevedo (escrito especialmente para ser apresentado nas palafitas),
Nômades é uma evolução do primeiro projeto já que agora público e
platéia não estão separados; mas juntos num espetáculo onde a platéia
poderá penetrar as palafitas e explorá-las a partir do movimento permitido
pelas passarelas, escadas e rampas suspensas. Um projeto de paisagismo
deixou os escombros do local como que uma plantação agrícola; enquanto
caixas de capins deixarão as plataformas ladeadas por um matagal elevado
- ou os "capins suspensos das palafitas". |
1 A paisagem das
grandes cidades é composta por muitos elementos residuais. Regiões
vacantes, vazios sub-utilizados e terrenos baldios configuram áreas
abertas e sujeitas às pressões econômicas e sociais. Áreas vizinhas
a ferrovias, regiões desindustrializadas, centros urbanos em declínio,
portos desativados - todos vêm se transformando num imenso manancial
propício para megaintervenções, uma tendência mundial que tem gerado
várias formas de revitalização urbana. Amnésias Topográficas, no
entanto, é um projeto que procura estender as estratégias de projeto
nesses locais, buscando mostrar tanto os limites das intervenções
convencionais quanto as possibilidades de intervenções efêmeras.
2 Os prédios do Buritis, um bairro montanhoso na
zona sul de Belo Horizonte, só podem contar com quatro pavimentos,
ficando sem qualquer utilização as estruturas em terreno de declive
acentuado - o que forma as assim chamadas palafitas sob os prédios.
Como conseqüência da rigidez da Lei de Uso e Ocupação do Solo (que
então não permitia prédios com mais de quatro pavimentos), construções
onde as palafitas têm a mesma altura ou mesmo são mais altas que
o prédio que sustentam são elementos comuns naquela paisagem. Lançado
para o mercado imobiliário no início da década de noventa, em seis
anos todos os morros do bairro, antes marcados por uma palmeira
típica do cerrado - o buriti -, foram todos rapidamente ocupados
por prédios caracterizados pela uniformidade volumétrica, pela falta
de uma melhor relação terreno-projeto, pela mesmice e sobretudo
pela falta de imaginação de seus arquitetos. 3
Os pilotis desses prédios são como plataformas que dividem dois
espaços absolutamente desconexos: abaixo, um labirinto de pilares
de concreto; acima, apartamentos classe média. E no meio, os pilotis
que funcionam como garagem e/ou área de lazer. São prédios com uma
única estrutura em um único lote em um mesmo imóvel, porém gerando
duas possibilidades de ocupação independentes, radicalmente separadas
e espelhadas pelos pilotis. 4 Uma dessas
ocupações está determinada (os apartamentos); a outra encontra-se
espantosamente em aberto. É evidente que o potencial arquitetônico
desses prédios está precisamente nessa organização atípica, na lógica
de assentamento das Amnésias Topográficas, nessa surpresa gerada
por um acidente arquitetônico. Ora, o labirinto formado pela seqüência
das palafitas de concreto, a natureza explicitamente residual desses
labirintos e a uniformidade dos prédios suportados pelas palafitas
conformam, todos eles, um potencial que é inversamente proporcional
à qualidade arquitetônica desses objetos. Terrenos acidentados são
vencidos através de uma malha sincopada de pilares e vigas, cintas
e contraventamentos que, juntos, materializam fantasias arquitetônicas.
São espaços piranesianos não idealizados por arquitetos; produtos
de calculistas que jamais imaginaram o espaço que projetaram; surpresas
espaciais que nunca acontecem no mundo previsível da arquitetura.
5 Duas coisas marcam a esquizofrênica identidade
visual desse bairro: as palafitas e a mata atlântica sobre as encostas.
Grandes áreas verdes permeiam os prédios palafitados. A topografia
do bairro é tão montanhosa que partes de muitos quarteirões não
puderam ser loteadas. É por isso que várias reservas naturais são
vizinhas às sequências de palafitas; reservas que não são parte
do plano urbano do bairro e tampouco foram uma exigência legal para
equilibrar a quantidade de área verde por habitante - são simplesmente
uma consequência topográfica. São manchas verdes desconectadas e
totalmente inacessíveis por causa da declividade e da fileira de
palafitas que as protege e as isola de todo contato com as ruas
e com os próprios prédios.
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| 6 Na arquitetura moderna, o pilotis dos edifícios
habitacionais foi concebido como um elemento que permitiria soltar
o edifício do terreno, liberando no térreo uma área aberta, coberta,
geralmente contígua a áreas verdes e úteis como play-ground, local
de eventos, etc. "Que a casa seja suspensa por estacas, que se erga
no ar, que o jardim penetre debaixo da casa". Dessa forma os pilotis
permitiriam uma continuidade do parque ao redor dos prédios ou das
casas. Brasília e suas super-quadras são uma ótima tradução desse
elemento, sendo que seus blocos residenciais permitem o livre caminhar
pelas super-quadras por estarem sempre apoiados sobre pilotis. Por
mais geométricos que sejam, esses prédios procuram ser permeáveis
e penetráveis pelo público, integrados que estão na vegetação rala
do cerrado. 7 No caso de Amnésias Topográficas, é como se o pilotis
tivesse sofrido uma mutação, resultado de um tumor (maligno?): no
lugar deste, as palafitas fazem a conexão arquitetura-natureza. Com
algumas semelhanças: ambos servem para separar os prédios da natureza
e do contato direto com o terreno. E com diferenças fundamentais,
também: ao contrário dos pilotis, que em princípio servem para integrar
os prédios e moradores nas áreas verdes, as palafitas mantém a natureza
como algo inatingível. No final, os dois principais elementos do bairro
(matas e palafitas), ambos de uma beleza quase espetacular, ironicamente
não são acessíveis nem para moradores e nem para o público em geral.
8 Invento para Leonardo, peça do grupo de teatro
Armatrux, foi a primeira transformação desse resíduo em palco de um
espetáculo, evento que se encaixou em nossa idéia de reverter os espaços
negativos da cidade, aproveitando-os como espaços ativáveis. Partimos
então de algo existente - uma estrutura arquitetônica ordinária e
agressiva - que se transformou em matéria espacial. Prédios vizinhos
aqui se tornam uma única e contígua estrutura de concreto aparente;
um continuum de vigas e pilares prontos para receber qualquer função.
Passarelas de madeira, escadas, rampas e plataformas possibilitaram
o uso extensivo das palafitas em diversos níveis no espetáculo Invento
para Leonardo, quando uma arquibancada tubular transformou um lote
vago em platéia das palafitas. A situação da platéia - um lote vago
entre dois prédios de apartamentos laterais e as palafitas no fundo
- criou uma outra relação entre espectadores, palco e cidade. Simultaneamente
à apresentação da peça, os prédios vizinhos apresentavam cenas cotidianas
que se tornaram públicas: famílias jantando, tomando banho, conversando,
dormindo e, eventualmente, assistindo à peça de suas janelas. 9
O espetáculo possibilitou também uma inversão no quadro de privatização
dos espaços da cidade. Em um país de cidades cada vez menos públicas
e mais violentas, o projeto funcionou como um urbanismo efêmero que
mostra os desequilíbrios urbanos de uma forma sem precedentes. Nesse
sentido, Armatrux foi um fator crucial nesta investigação: ao contratar-nos
para a escolha do local para uma nova peça, o grupo com tradição de
teatro de rua estendeu a pesquisa do teatro para a pesquisa de novos
conceitos de rua. 10 A segunda intervenção
ocorreu em 2004, quando grandes volumes de plantas comuns e vulgares
invadiram as palafitas definitivamente. Amnésias Topográficas II,
a última intervenção com o grupo Armatrux, esteve marcada por jardins
suspensos, plataformas de madeira, escadas, rampas e uma grande superfície
de fibra de côco que revestiu toda a encosta das palafitas. Uma seqüência
de palafitas contíguas passou a ser penetrável por meio de várias
passarelas que permeiam dois prédios e terminam quatro andares acima
do nível de acesso, que é um lote vago nos fundos das palafitas. Não
mais a separação entre platéia e público: o projeto Amnésias II mistura
público e privado, atores e audiência, e usa as passarelas de circulação
do público como local de apresentação e encenação. 11
A tela de fibra de côco foi mais que uma simples indutora de uma nova
cobertura vegetal das palafitas. Ela transformou aquela paisagem (antes)
de escombros, entulho, ratos e escorpiões em uma topografia cenográfica,
abraçando toda a encosta sem deixar nenhum centímetro de terra ou
lixo à vista até descer lote abaixo, ocupando todo o terreno dos fundos
como se fosse um tapete de gramíneas pervagante e onipresente. Toda
a superfície do solo foi embrulhada pela tela; todo o entulho foi
removido e/ou escondido pela superfície invasora da tela, e tudo ficou
como morros côncavos e convexos de fibra de coco. 12
A semente que foi plantada com a tela foi a aveia, uma gramínea de
crescimento rápido e ideal para o evento nas palafitas. Azevém, braquiara,
arroz e alpiste são as outras gramíneas que compõem o mix de matos
da tela de côco. Assim, o aspecto de "por fazer" das palafitas foi
modificado a partir de plantas típicas dos campos agrícolas. 13
Mas os capins também subiram pelas vigas e cintas para então ganhar
as alturas palafitadas. Caixas de madeira ruim, as mesmas usadas para
transportar frutas, foram usadas para plantar mais capins fora das
palafitas. Foram 180 caixas com mais ou menos 28 mudas em cada (ou
5.040 mudas), ocupando uma área de 100 m2 e apoiadas sobre perfis
"I" Usilight série VE (Usiminas). Cada muda foi plantada em saquinhos
de plástico preto de 8 centímetros de diâmetro, e com terra adubada
o suficiente para que todas as plantas daninhas crescessem em tempo
recorde. O alpiste e o milho - capins sabidamente rápidos - cresceram
mais ou menos 50 centímetros com apenas um mês de vida. Arroz e capim
meloso, um pouco mais lentos, foram importantes para gerar variações
de textura e tonalidades (têm verdes mais claros), além de provocar
interessantes nuances volumétricas no matagal suspenso. 14 Algumas
plantas invasoras e/ou comestíveis levadas para as palafitas: azevém
(Lolium multiflorum), aveia (Bromus catharticus), arrozinho (Luziola
peruviana), braquiara (Brachiara decumbens), além de alpiste, painço,
capim meloso e milho. 15 Na data do início do espetáculo teatral os
capins turbinados já haviam crescido mais do que o previsto. O sol
esturricante de outubro e as chuvas caudalosas de novembro fizeram
as plantas crescer muito mais que capim. Plantados numa flora e depois
transportados para as palafitas, a umidade do local fez com que os
capins permanecessem viçosos e exuberantes por muitas semanas, mesmo
com a luminosidade infinitamente menor dos labirintos das Amnésias.
A tela de coco lentamente se transforma em uma penugem de mudas recém-brotadas
-- nas profundezas das palafitas menos; nas áreas próximas do sol,
mais - passando dos tons de marron para uma superfície de verdes esparsos
e concentrados em tufos. Quase cem madeirites 110x220 cm foram usados
na confecção das passarelas, além de vários metros lineares de peças
de madeira 15x6, inúmeros metros lineares de peças 6x6, centenas de
metros de peças 27x6, 200 parafusos 3/8 x 5", e dez kilos de pregos
- tudo totalizando uma área palco-platéia de 250 m2, além dos 100m2
de capins suspensos em perfis Usilight. 16 Nômades,
um drama sobre a solidão e a esperança do Grupo Armatrux (texto de
Paulo Azevedo, direção de Critiana Brandão), é um diálogo com as contradições
e ambigüidades expostas na intervenção Amnésias Topográficas II. Os
atores ora se perdem no espaço, ora convidam os espectadores para
caminhar nas passarelas. Começando o espetáculo na rua, homem-cone,
mulher-das-caixas, homem-cabeça, e mulher-da-TV trazem a platéia para
as Amnésias e percorrem as passarelas com sofreguidão, fazendo comentários
sobre o espaço do evento e terminando a cena em meio ao público, no
terceiro e último andar do palco-platéia. |
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